No dia 20 de novembro de 1966, às 17 horas, na Santa Casa de Misericórdia de Avaré, eu vinha ao mundo, com uma fome de vida incomparável, com uma sede de saber inesgotável. Deus me deu como regente, além Dele mesmo, o signo de escorpião e a ascendência entre Touro e Áries. Cheguei rasgando as entranhas de minha mãe, um garoto que pesava quase cinco quilos. Numa família de cinco irmãos, morando com os pais e a avó.
De minha Avó, lembro pouco. Lembro que deveria ter dado mais ouvido às suas histórias, lembro que deveria ter dito mais vezes eu te amo, lembro que o mundo, aos olhos de minha avó espanhola era repleto de simplicidade, de respeito, de vida e de sabedoria.
De meu pai, lembro do trabalho, do carisma, das amizades, da ingenuidade, da confiança depositada nas pessoas erradas, mas lembro também da fragilidade dos acidentes e do tempo que teve em vida para reconhecer seus erros e ficar mais ameno, mais querido, mais pai.
De minha mãe, lembro da batalha, lembro da anulação de sua vida pra criar seus cinco filhos mais o filho de uma irmã e, ainda por cima, cuidar de um comércio, cozinhar, satisfazer os filhos, anular sua existência em detrimento dos outros com uma doçura digna de uma mãe.
Do irmão adotivo lembro da obediência, lembro do desajuste, por mais que não discutíssemos os laços consanguíneos, e esses laços existiam, pois era filho da irmã de minha mãe, lembro do trabalho braçal, das viagens de caminhão, de cachoeiras, natureza, pic-nics, lembro da Bahia e do retorno.
Do irmão mais velho, já falecido, lembro das loucuras, da vida desregrada, da ganância em viver cada segundo como se fosse o último, lembro das mazelas da vida, do álcool, do cigarro, da doença e de seus filhos; lembro da morte assolando a família intacta, a morte prematura, anunciada à noite enquanto eu dançava em um clube qualquer.
Do outro irmão, lembro da proximidade na infãncia, da tentativa de ensinar a andar de bicicleta, do presente dado com carinho que era uma tartaruga e que tive medo durante todo o tempo em que ela existiu, lembro do trabalho, da vontade de crescer, da vontade de existir e ser alguém lembro das ousadias de investimentos, de compras e trocas, de ascensão e queda, lembro de mudanças, de casas, cidades, estados, lembro de batalha constante e tentativa inerente para achar seu lugar ao sol, sempre com religiosidade e afinco.
Da irmã mais velha lembro da fragilidade, da diferença, da doçura e do amor forte, respeitoso, incondicional, do amor que não cobra, do amor que simplesmente existe por existir e não se discute, sente-se. Lembro da sua entrega nas mãos dos outros, e rezo para que os outros utilizem essa entrega da melhor maneira possível, para que não a fira, para que não a desgaste.
Da outra irmã, lembro da cumplicidade, da igualdade, da alma gêmea, da alegria, da força, da determinação, da suavidade, da reclamação, da beleza, do bom gosto, da maternidade, da amizade, lembro até de mim mesmo olhando pra essa mulher inteira, completa e vibrante... lembro que amo, não lembro desde quando.
De todos eles lembro que cada um, a sua maneira, em sua vez, trouxe para meu coração pessoas interessantes, pessoas difíceis pessoas amáveis, complicadas, enfim seres necessários no aprendizado, seres que amaram os filhos da Dona Cida, seres que depositaram confiança na criação desses irmãos, e lembro de seus rebentos......
Cada olhinho que brilhava ao nascer enchia a casa e a família de esperança e de certeza na continuidade do gen, na continuidade do aprendizado adquirindo às duras penas e agora, esses rebentos já geram os seus, já trazem olhinhos brilhantes novamente, continuam a saga, continuam a conquista do espaço, crescem e multiplicam, e ecoam na eternidade, por intermédio de filhos, de arte, de trabalho, de conquistas, de alegrias, de tristezas, refazem a história começada. Ciclicamente.
De mim mesmo, lembro da ousadia, da busca, do encontro, da arte, da alegria, da queda, da phênix e de minha necessidade constante em ser alguém, em marcar o território, em não passar batido, lembro que completo 40 anos, impensáveis para alguém que sempre se colocou jovem, moderno, dinâmico. Alguém que sempre respeitou e se fez respeitar, alguém que sempre amou e ainda ama, só que agora com a calmaria do final da tormenta. Do meu amor, lembro da loucura, da entrega, dos ajustes, das conquistas, do trabalho, das arestas aparadas e do respeito. De quem eu amo, lembro do Beto.
Avaré, 20 de Novembro de 2006
terça-feira, janeiro 09, 2007
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